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CURITIBA, SEGUNDA-FEIRA,
1º DE JUNHO DE 2015
Diversão
&Arte
BEM
PARANÁ
Vitor Nuzzi, um jornalista
de 50 anos, acaba de lançar a
biografia não autorizada de
Geraldo Vandré, o homem
mais recluso da música brasi-
leira. Seu ato faz história em
duas frentes. Ao mesmo tem-
po em que narra com fôlego e
apuração incansável uma
vida repleta de mitos e que
permanecia nas impressões
de calabouço da ditadura, faz
o maior desafio à lei vigente,
que permite a retirada dos li-
vros das lojas com uma sim-
ples torcida de nariz do bio-
grafado. Seu livro
Uma Canção
Livro resgataGeraldoVandré
e reabre caso das biografias
Jornalista Vitor Nuzzi lança a história não autorizada do músico, um eterno recluso desde os anos 70
Interrompida
é comoVandré, in-
dependente e livre de autori-
zações Como nenhuma das
seis editoras procuradas quis
lançá-la sem a ciência do com-
positor, ele mesmo fez a revi-
são, mandou para a gráfica e,
agora faz a distribuição, uma
a uma, pelo correio. São, por
enquanto, apenas 100 exem-
plares que, segundo o autor,
não são vendidos.
Nuzzi procurou Vandré
para colher depoimentos so-
bre sua história. Enviou oito
cartas e não teve resposta de
nenhuma. Na única ligação
que Vandré atendeu, foi hos-
tilizado: "Não tenho interesse
nas coisas que você está fa-
zendo". Na última semana, o
músico, hoje com 79 anos, re-
solveu falar. "Acho isso uma
exploração", afirmou, ao jor-
nal
O Estado de S.Paulo
. Depois
de ser informado de que os
livros não estavam sendo ven-
didos, reiterou: "Mesmo as-
sim, é uma exploração. Uma
exploração de personalidade".
Sabe que uma biografia foi
lançada sobre o senhor?
GeraldoVandré—
Alguém
me disse alguma coisa, mas
não sei muito sobre isso.
O senhor não vai ler?
Vandré —
Vou, mas não
tenho muita pressa. Estou no
Rio e só vou para São Paulo
em um mês.
Osenhor entraria na Justi-
ça contra o biógrafo?
Vandré —
Vou pensar. É
algo que implica no direito da
personalidade.
Da privacidade, o senhor
quer dizer?
Vandré—
Não, dapersona-
lidade artística. É uma explora-
ção indevida.Minha personali-
dade artística pertence a mim.
Mas o livro parece sério,
apurado. Enão está sendo ven-
dido...
Vandré—
Mesmo assim, é
uma exploração. Existe uma
questão comercial aí.
Não acredita que o povo
precisa conhecer sua história?
Vandré —
Minha história
é secundária. E esse conceito
de povo é muito genérico.
“
“É uma lenda. A
violência que ele
sofreu foi
psicológica, de
um homem muito
apegado a seu
País que ficou
exilado por tanto
tempo”.
Do jornalista
Vítor Nuzzi, sobre se
o músico Geraldo
Vandré (foto) teria
sido torturado.
Projeto está nas
mãos de Romário
O projeto para mudar a
Lei das Biografias que tramita
no Senado, permitindo que os
livros sejam lançados sem a
autorização prévia dos biogra-
fados ou seus herdeiros, está
mais longe do fim. Pedidos dos
senadores Agripino Maia e
Ronaldo Caiado, ambos do
DEM, conseguiram com que
o assunto deixasse a Comis-
são de Constituição e Justiça
e fosse parar na Comissão de
Educação, Cultura e Esporte,
que tem o ex-jogador Romá-
rio como presidente.
Ao saber do projeto, Romá-
rio pediu para ser o relator.
Uma informação não oficial
apontava que seria esta uma
estratégia para se prorrogar a
votação aomáximo, já que não
haveria interesses internos em
sua aprovação. Oficialmente,
Romário é a favor das biogra-
fias não autorizadas e acredi-
ta que, quem se sentir lesado,
pode procurar a Justiça.
Quase oito anos de pes-
quisa, cerca de 100 entrevis-
tados, viagens para as cida-
des pelas quais seu biogra-
fado passou e três leões a
abater. Vitor Nuzzi e seu blo-
co de anotações enfrenta-
ram o medo das editoras di-
ante da maldição da não-
autorização, o receio de pos-
síveis entrevistados amigos
de Vandré que se fechavam
ao saber que ele não gosta-
va da ideia do livro e a im-
previsibilidade de seu pró-
prio biografado. Acreditou
em sua pesquisa e mirou as
primeiras luzes para a vida
de um dos compositores
mais intrigantes do País.
Sua obsessão pela histó-
ria de Geraldo Vandré come-
ça com uma constatação: de
todos os compositores exi-
lados, Vandré foi o único que
não voltou. Seu corpo, sim
— um regresso cheio de te-
atro protagonizado pelosmi-
Livro teve 8 anos de pesquisa
Janeiro para protestar con-
tra o regime. Vandré obser-
va a Passeata dos Cem Mil
com um hino em mente.
"Caminhando e cantando e
seguindo a canção / Somos
todos iguais / Braços dados
ou não / Nas escolas, nas
ruas, campos, construções /
Caminhando e cantando e
seguindo a canção".
PraNãoDizer queNão Falei
das Flores
, sua música mais
famosa, não foi censurada
em um primeiro momento.
"Pode mesmo ter sido uma
cochilada do regime", diz
Nuzzi. Saiu em compacto e
entrou como uma das for-
tes concorrentes no Festi-
val Internacional da TV
Globo de 1968. Forte a pon-
to de disputar a grande fi-
nal com
Sabiá
, de Chico Bu-
arque e Tom Jobim. Quan-
do a censura acordou, a
música de Vandré já havia
tomado as ruas.
litares que contaram com o
apoio decisivo da TVGlobo,
como o livro narra em deta-
lhes — mas sua carreira, ja-
mais. E é aí, mais que por
sua valorosa obra, que co-
meça a surgir o mito.
O Vandré de Nuzzi vai
além do homem persegui-
do. Antes de ter os pés
amarrados à imagem de
louco torturado pela ditadu-
ra, começou a carreira fa-
zendo bossa nova com Car-
los Lyra, pesquisando a
música dos sertões do País,
vasculhando a obra de Gui-
marães Rosa e se tornando
um defensor das raízes.
Uma defesa tão veemente
que o levaria ao embate
com tropicalistas e à sua re-
sistência em aceitar a gui-
tarra elétrica na MPB.
A história ganha outro
rumo a partir do dia 26 de
junho de 1968, quando o
povo sai às ruas no Rio de
Paiol recebe
o uruguaio
Daniel
Drexler
Nesta primeira se-
mana de junho, Curiti-
ba receberá o show do
premiado músico uru-
guaio Daniel Drexler. O
show, amanhã, às
20h30, no Teatro do Pai-
ol, marca o início da tur-
nê do novo trabalho do
artista, que reúne um
livro, DVD e CD Digi-
tal. Com cinco CDs lan-
çados e carreira interna-
cional, Daniel Drexler
possui premiações im-
portantes, como o Prê-
mio Gardel, o mais dis-
putado prêmio latino-
americano de música.
Tres Tiempos
é suces-
sor dopremiadoCD
Mar
Abierto
e traz as princi-
pais canções de seus
últimos três CDs con-
ceituais, em versões
inéditas. Nas novas ver-
sões, somam-se à ban-
da um duo de sopros e
um trio de cordas. Pas-
seando pelos ritmos
platinos e o pop,
Tres Ti-
empos
inclui um DVD,
gravado ao vivo em Bu-
enos Aires, e um livro de
ensaios sobre os seus
três últimos CDs (
Vacío
,
Micromundo
e
MarAbierto
),
apresentando ao públi-
co todo o seu processo
criativo.
O show emCuritiba
contará com a participa-
ção especial da cantora
curitibana Juliana Cor-
tes, que lançará seu se-
gundo álbum Gris em
outubro deste ano.
Serviço:
Show
Tres Tiempos
,
do uruguaio Daniel
Drexler.
Onde
: Teatro do Paiol
- Praça Guido Viaro,
s/nº
Quando
: amanhã, às
20h30
Ingressos
: R$ 60 e R$
30 (meia)
Daniel Drexler
Divulgação/Lucía_Galli