BEM
PARANÁ
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Cidades
CURITIBA, SEGUNDA-FEIRA, 1º DE JUNHO DE 2015
Rodolfo Luis Kowalski
Gastar um tempo mode-
lando e transformando a argi-
la em peças de cerâmica é
mais do que apenas uma téc-
nica de artesanato ou uma
forma de arte. Para algumas
pessoas, é uma verdadeira
terapia, uma forma de esque-
cer umpouco os problemas do
cotidiano, renovar as energi-
as e, até mesmo, de desen-
volver o autoconhecimento.
Em Curitiba, um dos lugares
que oferece curso de cerâmi-
ca é o Centro de Criatividade,
localizado no Parque São Lou-
renço (Rua Mateus Leme,
4700).
No Centro de Criativida-
de, o curso oferecido pela
Fundação Cultural de Curiti-
ba (FCC) é comandado pelo
artesão PauloOberik, umapai-
xonado pelo ofício.
“A h ,
eu não sei parar.
Eu gosto disso”,
afirma, que
diz ter nasci-
do com a
arte no sangue. “É hereditá-
rio, minha vó já trabalhava
com cerâmica e eu, desde o
meu primeiro emprego, com
13 anos, trabalhei com coisas
relacionadas à arte. Frequen-
tei a Escola de Belas Artes, o
que me ajudou muito. Mas
para mim foi fácil, já estava
no sangue”.
À frente do curso há 30
anos, ele conta que grande
parte dos alunos procura o
curso justamente como uma
forma de terapia, enquanto
outros buscam aprender no-
vas técnicas de artesanato.
Suas aulas, ministradas nas
tardes de segunda e quarta-
feira, atraem entre 10 e 15
pessoas, em sua maioria mu-
lheres.
“Temos alunos que já tra-
balham com artesanato e que-
rem aprender uma outra téc-
nica, mas também alunos que
vem do zero, sem ter conheci-
mento nenhum. Muitos vem
aqui também para fazer tera-
pia. São pessoas comproble-
mas como depressão e (o
curso)
ajuda bastante. A argila em si
já é uma terapia, só de manu-
sear”, explica Oberik, contan-
do ainda que muitos dos alu-
nos que começam o curso
como uma forma de terapia
acabam pegando gosto pela
arte e não param mais.
“Tive alunos que vieram
fazer terapia, aprenderam a
técnica e hoje são ceramistas
premiados. Teve uma aluna
que veio para cá no último
grau de depressão. Daí ela
conseguiu aprender as técni-
cas direitinho, fez uma peça,
mandou para o salão e ga-
nhou o primeiro prêmio. Com
isso não teve mais depressão”,
brinca o professor.
Uma das alunas que apro-
veita o curso como uma forma
de terapia é a aposentada Ma-
ristela Macedo Prata. Há qua-
tro anos, ela e o sobrinho, Mi-
khael, que é aluno de inclu-
são, frequentam as aulas de
Oberik. “Eu comecei pelomeu
sobrinho, e tanto para mim
como para ele foi ótimo, é uma
terapia. Nós adoramos
(o curso), tanto que
c on t i nuamo s
produzindo as
peças. Esta-
mos sem-
pre fazen-
do coisas para a casa, para a
família”, relata.
A descoberta da cerâmica,
inclusive, veio em boa hora.
Maristela sempre foi apaixo-
nada por tear e chegou a fa-
zer cursos sobre o assunto.
Contudo, um problema no
braço — o mesmo que a obri-
gou a se aposentar — acabou
a impedindo de continuar, já
que era muita dor.
“Aí eu vi o curso de cerâ-
mica e resolvi trazer o meu
sobrinho pra mais
uma atividade. E
acabamos nos
apaixonando,
hoje a cerâ-
mica é a
nossa pai-
xão. E acaba
um ajudan-
do o outro a
não parar ”,
diz ela.
Mas apesar
de todas de tudo
o que a argila e as
aulas de cerâmica
oferece, o interesse
pelo curso, e até
mesmo pela arte,
tem diminuído ao
longo dos últimos
anos, situação
que é muito la-
mentada por
Oberik. “Falta divulgação
(para o curso) e incentivo
(para os artistas). Émuita con-
corrência de outros países,
como a China, e isso nos en-
fraqueceu muito. Fazemos
um trabalho manual, apren-
dendo as técnicas direitinho,
mas daí quando vai para a
venda, não atinge o valor dos
produtos que chegam impor-
tados”.
Argila emcerâmica é arte e terapia
Técnica milenar tem várias funções além da artística e comercial. Pode ser usada para aliviar o estresse e a depressão
ESPELHO
Argiloterapia
Há mais de 20 anos a
argila é utilizada na
terapia de pacientes
com problemas
psicológicos,
ajudando,
principalmente,
aqueles que têm
dificuldades para se
expressar
verbalmente.
A técnica foi criada
pela psicóloga
curitibana Maria da
Glória Bozza, autora
do livro “Argila:
Espelho da Auto-
Expressão, pode ser
aplicada de três
maneiras diferentes.
Numa, psicólogo e
paciente modelam
uma escultura de
argila com tema livre.
A ideia que a obra
expresse algo que
está relacionado ao
problema que a
pessoa enfrenta. Se
o paciente optar por
não fazer a escultura,
ele também pode ser
levado até uma sala,
onde escolhe em uma
estante uma entre
diversas peças, o que
também pode deixar
transparecer
angústias, medos e
dificuldades. Por fim,
o profissional também
pode eleger uma
escultura que diga
algo sobre o que o
paciente sente, após
ele dizer alguma coisa
sobre si mesmo.
Fotos: Valquir Aureliano
Prática também é usada como terapia e para unir as pessoas
Maristela Macedo Prata e o sobrinho, Mikhael: cerâmica virou paixão
Paulo Oberik coordena o curso no São Lourenço: “Está no sangue”