BEM
PARANÁ
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Cidades
CURITIBA, SEGUNDA-FEIRA, 1º DE JUNHO DE 2015
Apesar dos avanços, ain-
da há diversas questões que
precisam ser solucionadas na
área da educação para garan-
tir a inclusão, a acessibilidade
plena do aluno dentro da es-
cola. E um dos maiores pro-
blemas é a falta de intérpre-
tes no mercado. Muitos pro-
fissionais acabamprocurando
outras áreas para trabalhar.
O governo tem investido
na oferta de cursos e conse-
guiu nos últimos anos aumen-
tar o quadro de profissionais
— atualmente existem 581 in-
térpretes trabalhando nas es-
colas do Paraná, enquanto em
2009 eram 354 (uma variação
positiva de 64,12% em seis
anos) —, mas ainda está lon-
ge de suprir a demanda.
No Instituto Erasmo Pi-
lotto, por exemplo, 11 intér-
pretes atendem as 11 turmas
que possuem alunos surdos.
Quando algum dos profissi-
onais falta, os estudantes
acabam tendo de “se virar
nos 30”, já que não há subs-
titutos. Na Escola Erasmo Pi-
lotto isso até não chega a ser
uma dificuldade maior, por-
que parte dos alunos mais
velhos consegue “quebrar o
galho” numa emergência.
“Como muitos profissio-
nais acabam procurando ou-
tros locais de trabalho que
não a escola, acaba aconte-
cendo dos alunos não terem
Empecilhos para a inclusão
intérprete”, admite Fabiana
Ceschin Ribas, da área de sur-
dez do DEEIN.
“As vezes acontece de os
intérpretes não estarem dis-
poníveis desde o começo do
ano ou então faltar por moti-
vos de saúde e acabamos fi-
cando sem esses profissionais
dentro da sala de aula. Isso
gera um prejuízo para os alu-
nos, então ainda precisamos
melhorar, aprimorar, mas já
estámuitomelhor do que foi”,
complementa o diretor-auxili-
ar do Instituto Erasmo Pilotto,
Lourival de Araujo Filho.
Outro problema é a falta
No final de 2006, um estu-
do feitopor cincopesquisadoras
daUniversidadeTuiuti doPara-
ná apontou que asmaiores difi-
culdadesdosestudantessurdos,
segundo os professores, seriam
a elaboração, compreensãoe in-
terpretação textual, a dificulda-
de para se entender o conteúdo
e para se interagir, a falta de
preparodos professores e a fal-
ta de interesse dos próprios
alunos. O estudo mostrava
que as principais dificuldades
citadas relacionavam-se à fal-
ta de conhecimento de estra-
tégias para a surdez, e a falta
Maiores dificuldades dos alunos
Uma pesquisa qualita-
tiva feita recentemente no
Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo
(USP) apontou que viven-
ciar a experiência da edu-
cação inclusiva na pr-esco-
la pode promover a tole-
rância, a abetura em rela-
ção ao diferente, evitando-
se assim o preconceito.
O estudo, feito com seis
alunos com idades entre 7
e 16 anos egressos de uma
creche pública com carac-
terísticas inclusivas e am-
biente diversificado, reve-
lou que as experiências vi-
vidas na infância como fun-
damentais para definir as
características mais mar-
cantes do caráter de uma
pessoa, com os entrevista-
dos demonstrando uma
abertura para se relacionar
com pessoas diferentes -
não apenas com deficiên-
cias físicas e intelectuais,
mas também com orienta-
ção sexual, religião, etnia,
classe social e demais ques-
tões que caracterizam o di-
ferente.
Além disso, os estu-
dantes tambémmostraram
não ter a ideia equivocada
de que pessoas com defici-
ências são tristes ou insa-
tisfeitas, mostrando uma
relação de respeito nos re-
latos. Por fim, os entrevis-
tados tambémmostrar pre-
ocupação com o próximo.
“Enquanto a maioria
das pessoas se cala diante
de uma cena de discrimi-
nação ou agressão, eles se
preocupam e alguns inter-
ferem na tentativa de aju-
dar. Isso mostra que a for-
mação foi capaz de criar
uma consciência suficien-
temente forte para desen-
cadear também ações e
compromissos, afirmou
Marie Claire Sekkel, coor-
denadora da pesquisa, em
entrevista Agência Fapesp.
Formando
pessoas
mais
tolerantes
Apesar dos avanços, escolas ainda têm dificuldade para contratar e manter intérpretes de Libras
de preparo dos próprios pro-
fessores, o que, naturalmen-
te, causa dificuldades no pro-
cesso de ensino-aprendiza-
gem dos alunos surdos. A
maior dificuldade na comuni-
cação, porque às vezes, mes-
mo tendo o intérprete em sala,
o professor não se dirige ao
INTÉRPRETES
581
intépretes de
Libras trabalham
para nas escolas
estaduais públicas
do Paraná.
atualmente.
RÁPIDA
Inclusão em alta
Entre 1998 e 2010 o número de alunos especiais matriculados em escolas comuns
cresceu 1.000% no País. Em 1998, somente 43,9 mil dos 337,3 mil alunos
contabilizados em educação especial estavam matriculados em escolas regulares
ou classes comuns. Em 2010 esse número já havia passado para 483,3 mil dos 702,6
mil estudantes na mesma condição, um salto de 13% para 69% dos alunos com
necessidades especiais matriculados em escolas regulares.
de compreensão do surdo.
Quase 10 anos depois, a
situação não parece ter muda-
do muito. Segundo Lourival
Araujo Filho, cerca de 70%dos
alunos surdos entramna esco-
la sabendo nada oumuito pou-
co de Libras, o que acaba acar-
retando em outras dificulda-
des. "Eu percebo que a maior
dificuldade é ainda a questão
da linguagem voltada ao por-
tuguês, porque nossa língua é
a portuguesa e quando há a
tradução acaba havendo uma
deficiência no conhecimento
que essa criança traz desde a
Na sala de aula, trabalho do profissional é ser apoio para o professor: Paraná tem 581 intérpretes de Libras
aluno, se dirige ao intérprete.
Ele (professor) tem de fazer
uso de recurso visual dentro
de sala de aula, o que tam-
bém vai favorecer o ouvinte.
As pessoas, mesmo os profes-
sores, não tem o cuidado de
aprender, conhecer, pesqui-
sar”, critica Fabiana.
infância. Muitas vezes há uma
perda porque não houve estí-
mulo", afirma Lourival.
Cursos
—Alémdos cursos
ofertados pelo Estado, institui-
ções como a Universidade Fe-
deral do Paraná (UFPR), a Fa-
culdade de Ensino Superior
(FESP), a FAE, o ServiçoNacio-
nal de Aprendizagem Indus-
trial (Senai) e a Federação Na-
cional de Educação e Integra-
ção dos Surdos (Feneis-PR)
também ofertam o ensino de
libras — a FESP, inclusive, ofe-
rece o cursogratuitamentepara
alunos e a comunidade.
Fotos: Valquir Aureliano
O ABC DO SURDO